ACERVO PALESTINA: preservação das memórias de um bairro a partir de fotografias analógicas

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O que guardam as caixas de sapatos, as gavetas de armários antigos e os álbuns esquecidos nas salas de estar? No bairro Palestina, localizado na entrada de Santa Cruz do Capibaribe, esses pequenos fragmentos domésticos guardam a história viva de um território feito de chegadas, afetos e mutações.

O projeto ACERVO PALESTINA, projeto inscrito no Microprojeto Cultural 2023/2024 intitulado Palestina | Um acervo histórico a partir de fotografias analógicas nasce do desejo de criar um levante contra o esquecimento. É um mergulho na memória coletiva de um bairro que acolheu e acolhe tantas famílias que desenharam a paisagem urbana e cultural do Agreste pernambucano. Apresentamos aqui um acervo inicial, parte de uma pesquisa em desenvolvimento contínuo vinculada ao Museu de Arte Sertão Agreste (MASA).

A poética do grão e do tempo

A escolha estrita pelo suporte analógico é um resgate do tempo em que a fotografia nas periferias urbanas era um acontecimento escasso, planejado e afetivo. Cada imagem carrega a textura física dos anos 1990 e 2000: as cores levemente desbotadas pelo tempo, as marcas físicas no papel fotográfico, o grão da película e os enquadramentos espontâneos de quem registrava a vida sem a pressa do digital.

Nesta imagem, o registro nos transporta para o ano 2000, momento em que o PSF (Posto de Saúde da Família) Palestina foi implantado, figurando entre as primeiras unidades de saúde a serem instaladas na cidade de Santa Cruz do Capibaribe, ao lado das unidades do Santo Agostinho, Santa Tereza e Cohab.

Através do SUS, aquele espaço passou a ser a porta de entrada para serviços essenciais que mudaram o cotidiano de muitas famílias: o controle e acompanhamento à gestação, a distribuição de medicamentos e o acolhimento do Programa de Saúde da Família.

No centro do quadro, a agente de saúde Lusimar Guimarães posa sorridente, ancorada no alto dos degraus de concreto. Ela é a personificação do cuidado que o edifício se propunha a oferecer.

Hoje, o prédio guarda a marca de inúmeras reformas e o passar dos anos, tornando-se algo diferente do que conhecemos nesta foto. Contudo, este registro permanece como um documento vital da expansão da saúde pública no nosso bairro e, acima de tudo, da relação de afeto e proximidade que sempre existiu entre os agentes de saúde e a comunidade que eles ajudam a construir.

O Álbum de Família como Documento Social

Dentro da nossa linha de pesquisa, o álbum de família deixa de ser um objeto puramente privado e passa a ser compreendido como um potente documento social. Deparamo-nos com uma cartografia visual que narra a migração interestadual e interiorana, a busca por trabalho e a tecitura de redes de solidariedade no Agreste. As imagens revelam como a comunidade se organizou ao longo das décadas para celebrar, criar espaços de lazer, reivindicar direitos e construir sua própria infraestrutura urbana.

 

Há uma profunda dimensão histórica na escassez desses registros de época. Nos contextos periféricos de outrora, possuir uma câmera fotográfica ou arcar com os custos de revelação de um filme de 24 ou 36 poses demandava planejamento. Muitas das fotografias salvaguardadas neste acervo foram fruto de um ato comunitário e compartilhado: quando um morador com acesso ao equipamento registrava o batizado, a festa junina ou o cotidiano da família vizinha. Cada fotograma digitalizado carrega, portanto, um valor documental inestimável sobre a economia afetiva do território.

Salvaguarda e Horizontes da Pesquisa

Como um projeto de caráter público, cultural e educativo, este espaço não se encerra nas imagens aqui expostas. Por se tratar de uma investigação em fluxo contínuo, este acervo inicial funciona como uma semente para estudos mais profundos que estão sendo articulados junto ao MASA, visando a futura realização de uma exposição física expandida e a publicação de um fotolivro que reúna de forma ainda mais densa o material colhido.

Este site é um espaço de permanência e construção aberta. O “levante contra o esquecimento” é coletivo; por isso, se você se reconhecer em alguma imagem, quiser complementar dados, contar a história por trás do registro ou desejar integrar suas próprias fotografias analógicas antigas à nossa pesquisa, sinta-se convidado a fazer parte desta rede de preservação

Para acompanhar de perto as atualizações da pesquisa, conhecer os novos relatos que entram no acervo e interagir com o projeto diário na comunidade, siga o nosso perfil de difusão oficial:

Caminhe pelas imagens, reconheça os rostos que estruturam o nosso dia a dia e celebre conosco a memória da Palestina, em suas dores e em suas delícias.

Ficha Técnica

Proponente e Coordenação Geral: Virgínia Guimarães
Pesquisa e Organização de Acervo: Virgínia Guimarães
Pesquisadora de Campo: Lusimar Guimarães
Assistente de Pesquisa: João Luiz
Assessoria de Imprensa e Redação: Mayara Bezerra
Fotografia e Edição de Material Gráfico: Luis Renato
Pesquisa vinculada ao: Museu de Arte Sertão Agreste (MASA)

Realizado com incentivo do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura – Funcultura, do Governo do Estado de Pernambuco, através da Secretaria de Cultura e da Fundarpe.

3 de março de 2026
pesquisa